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Se seu filho estudasse no Vale do Silício, conseguiria amarrar os cadarços?


“♫ Vem brincar comigo/ Vamos jogar lá fora/ O dia passa logo/ Vem comigo agora” (Projeto Pequeno Cidadão)



​Eu fui daquelas crianças que demoraram a aprender a amarrar cadarços. Diga-se que ainda não é das minhas melhores habilidades. Talvez por isso goste tanto dos tênis sem cadarços até hoje.


​Há muita gente boa dizendo que a humanidade está ficando mais burra justamente por causa das facilidades que tecnologia nos traz: não precisamos decorar praticamente mais nada, nem o número do telefone dos parentes, nem mentalmente os mapas para nos levar às casas dos amigos. E, tristemente, até somas fáceis estão se tornando difíceis para muita gente. Existem diversas pesquisas sobre os nós que a tecnologia está dando nos neurônios e o sumiço das sinapses.



Os cadarços


​Nos últimos anos outra questão, além da superficialidade de raciocínio, tem sido levantada pelos estudiosos por conta do excesso de tecnologia e internet, especialmente dos celulares e tabletes nas mãos das crianças.


​Crianças muito tempo em frente às telas significa pouco tempo brincando de pegar, esconde-esconde, pular corda, futebol, boneca, carrinho, ou mesmo dos jogos de tabuleiro. Essas brincadeiras, se não forem incentivadas pelos pais e escolas, acabam se tornando bem menos atrativas do que a internet e os games.


​Essa troca de prioridade das crianças está desencadeando, segundo especialistas, danos à coordenação motora ampla e à motricidade fina, aquela que se vê principalmente no controle das mãos e dedos para atividades mais precisas ou delicadas, como abotoar, escovar os dentes, escrever e amarrar cadarços. Em pesquisa brasileira, de 2019, com base em estudo de 2015, 57% das crianças de cinco anos sabiam utilizar mídias eletrônicas, mas somente 14% sabiam amarrar cadarços.



​Claro que há diversos outros problemas que envolvem o excesso de telas para crianças e bebês, assim como inúmeras questões técnicas (do ponto de vista da saúde física e mental), mas hoje toco apenas nesse não tão óbvio – para a maioria da população - da coordenação motora.



Enquanto isso no Vale do Silício...



​Essa comentada, comemorada ou odiada, região da Baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), é considerada a meca das startups e das gigantes da tecnologia. De lá saíram e continuam saindo grandes mentes da inovação e da disrupção. É natural, assim, que se imagine que as escolas de crianças daquele rincão sejam ultratecnológicas, supermodernas, incrivelmente futuristas. Ledo engano.



​A mais famosa delas, para onde vai a maioria dos filhos dos bambambãs das grandes empresas de tecnologia, é a Escola Waldford. Lá, crianças não utilizam computador e nem celular. Busca-se interação com o mundo real, acriatividade, a curiosidade, o lado artístico, a concentração, a iniciativa dos alunos.



​Há vários fatores para isso. O documentário “O dilema das redes” é um alerta e dá sentido ao comportamento dos pais do Vale do Silício. Em 2010 Steve Jobs (da Apple) já dizia que seus filhos não utilizavam o iPad e que limitava a quantidade de tecnologia para eles. Bill Gates (Microsoft) foi na mesma linha e parece que Zuckerberg (Facebook – Meta) também vai. E não são os únicos.


​Ou seja, querer colocar computadores em todas as carteiras escolares das crianças pequenas pode ser uma grande bobagem – e um gasto desnecessário, principalmente ser for com dinheiro público – se não houver outras preocupações pedagógicas antes disso.


​Afinal, você prefere que seu filho seja um zumbi tecnológico tropeçando no próprio tênis desamarrado, ou uma criança criativa, ativa e realmente feliz?


​Em tempo: fica a dica aos pais para ouvirem as músicas do Pequeno Cidadão, projeto do Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra, Taciana Barros, Antonio Pinto e seus filhos. Ouvir e praticar!

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