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Pais e celulares

Disrupção: Tudo com Raphael Rocha Lopes

Getty Images


“♫ Você me diz que seus pais não lhe entendem/ Mas você não entende seus pais/ Você culpa seus pais por tudo/ E isso é absurdo/ São crianças como você/ O que você vai ser/ Quando você crescer?” (Pais e filhos; Legião Urbana)


Costumo, com certa frequência, falar, aqui, das minhas preocupações com as crianças e adolescentes, os filhos, em relação à tecnologia, à internet, especialmente às redes sociais, cada dia mais viciantes. E, ao que tudo tem indicado, “viciante” não é apenas uma forma de expressão.


Os pais


Quando me vi envolvido pelas leituras, pesquisas e estudos sobre os impactos da tecnologia na vida das crianças e adolescentes, quando tomei consciência da minha preocupação e da necessidade de uma preocupação coletiva que envolvesse poder público, escolas, pais e outros especialistas sobre esse assunto, isso há uns seis anos, eu não tinha noção de que o perigo estava, está, em outros polos também.


Recentemente publiquei nas minhas redes sociais vídeos de pais completamente absorvidos pelas telas de seus celulares. Cenas que poderiam ganhar contornos dantescos como a do pai quase de costas empurrando seu filho pequeno num balanço, dando a clara impressão de que, se caísse, o filho, o pai continuaria balançando o brinquedo. Ou do pai que, sentado no sofá, com os cotovelos apoiados nos próprios joelhos, não viu seu filho pequeno, em um andador, tirar uma caneca da sua frente (do pai), sair de perto e derrubar a bebida!


Como esses há inúmeros. Algumas pessoas até acham “bonitinhas” ou “virais” essas situações. Mas são emblemáticas; catastroficamente emblemáticas.


Com episódios como esses acontecendo com cada vez mais frequência, percebi que a luta, agora, ficou muito mais difícil e cruel. Por incrível que pareça, não temos que nos preocupar e zelar apenas pelos filhos; agora temos pais hipnotizados ou imbecilizados pelos celulares para cuidar.


Pais e filhos


Filhos, crianças são esponjas e espelhos. Absorvem tudo muito facilmente e repetem tudo o que os adultos no entorno fazem ou falam, especialmente seus pais.


Partindo desta premissa, o que esperar de crianças que chegam da escola e veem pais que não largam os celulares, que não conversam e que, como já ouvi casos, sequer se preocupam com a higiene (a física, porque a mental já foi pras cucuias) dos próprios filhos, acendendo alertas em algumas das instituições?


O que esperar de filhos cujos pais substituíram suas obrigações de educadores e exemplos por smartphones e tablets? De pais que permitem que seus filhos façam as refeições com esses aparelhos ligados o tempo todo, alimentando-se mecanicamente como robôs sem cérebros? De pais que entram em bolhas radicais na internet e não conseguem ter uma discussão saudável além dos radicalismos, seja qual for seu lado? De pais que não abrem um livro para ler com seus filhos? De pais que não têm tempo para afetos e carinhos com seus cônjuges e nem com seus filhos, mas que vivem dando likes nas publicações de desconhecidos?


Onde estarão esses pais na linha e fila da perspectiva e do interesse de seus filhos no futuro? Qual a importância que seus filhos darão a eles se hoje eles, seus filhos, estão sendo tutelados por celulares? E o que serão dessas crianças quando crescerem?


Será que ainda há tempo para quebrar esse ciclo assustador?


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