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Os perigos de compartilhar informações sem confirmar a veracidade

Disrupção: Tudo com Raphael Rocha Lopes



“♫ São tão legais/ foras da lei/ Pensam que sabem de tudo/ O que eu não sei/ Nesse mundo assim, vendo esse filme passar/ Assistindo ao fim, vendo o meu tempo passar” (Alvorada voraz, RPM).


Quem nunca mentiu? Não conheço ninguém que nunca tenha mentido. Provavelmente você mesmo já mentiu uma ou algumas vezes somente hoje, dependendo do horário que estiver lendo essa coluna. Algumas mentiras não têm a intenção de prejudicar ou machucar; ao contrário, tentam preservar relações, como nos casos, por exemplo, da resposta à pergunta da sogra sobre o jantar servido. Outras, porém, são malignas, maquiavélicas e têm, sim, o condão de manchar a honra ou tranquilidade das pessoas (ou empresas) ou coisa pior.


Há, nesse novo mundo virtual, ainda, a hipótese das pessoas que mentem sem saber ou ter certeza que estão mentindo. São os casos dos compartilhamentos de informações falsas ou notícias descontextualizadas. Muitas vezes, principalmente em situações que envolvem política ou religião, decorrem da necessidade de pertencimento (a um determinado grupo) ou de confirmação de seus próprios pensamentos. Já falei sobre isso em outro texto.


A descontextualização que pode matar


Dia desses recebi um vídeo terrível de um suposto pai que dava uns tapas e largava de certa altura sua filha bebê, de, possivelmente, um ano de idade. Cenas repugnantes. Não consegui passar do primeiro tapa, mas o texto que acompanhava o vídeo me fez ir atrás da origem da história: “Se alguém conhece, estão procurando”. Em outras versões de texto, a ideia era a mesma.


Encontrei. O vídeo é real: um pai batendo em sua própria filha. Um homem moreno claro, talvez nos seus trinta e poucos anos, de óculos e barba, acima do peso. Todo mundo conhece alguém que se enquadra nesta descrição. O problema: o vídeo é de meados de 2019, o cidadão é da Arábia Saudita e já havia sido preso naquela ocasião em Riad.


Ou seja, o compartilhamento deste vídeo no Brasil em 2022, totalmente descontextualizado no tempo, em nada contribuiria para a solução do caso, seja porque não ocorreu aqui, seja porque a polícia saudita já o tinha identificado e tomado as providências na época dos fatos.


Por outro lado, a distribuição de vídeos desta natureza em grupos de WhatsApp, especialmente nesse momento, no qual muitas pessoas radicalizam qualquer coisa, pode se transformar em tragédia. No universo de 200 milhões de brasileiros, aproximadamente metade homens, quantos poderiam ser parecidos e confundidos com o agressor do vídeo? E quais os riscos de, num efeito manada, esse homem ser linchado ou morto?


Isso já aconteceu!


Em 2014 foi registrada a, talvez, primeira vítima fatal de boato oriundo da internet. Fabiane Maria de Jesus foi espancada até a morte em maio daquele ano na cidade de Guarujá, SP. Foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças cuja história – nunca comprovada – foi publicada e compartilhada no Facebook. As pessoas a amarraram e a agrediram até a morte. Alguns dos envolvidos foram condenados criminalmente.


Em 2017 um casal quase foi linchado, em Araruama, RJ, por conta de mensagens que circularam pelo WhatsApp dizendo que eram sequestradores de crianças. Chegaram a apanhar, mas foram salvos pela guarda municipal. O vídeo do episódio é assustador. Caso mais famoso e antigo é o da Escola Base, de 1994. Donos e professores da escola foram acusados de abusar dos alunos, crianças pequenas. Por pouco não foram linchados, a escola foi completamente depredada e as vítimas tiveram suas vidas mudadas para sempre e levaram décadas para receber as indenizações – as que não morreram ao longo dos processos.


Esse ano, um homem de 31 anos foi linchado e queimado vivo no interior do México também por conta de boatos circulando pelas redes sociais que lhe imputavam ser sequestrador de crianças. Era um turista da região e nada foi comprovado contra ele.


A justiça pelas próprias mãos não é justiça. Não em países democráticos e que prezam pelo estado de Direito. Na verdade, em nenhum lugar. Compartilhar informações não comprovadas é uma forma de fazer a tal justiça, que de justiça nada tem. E, como visto, gera o risco de provocar tragédias como as que mostrei hoje, pequenos grãos no universo da internet.


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