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Minority Report no Reino de Pasárgada, Berlim e a internet

Disrupção: Tudo com Raphael Rocha Lopes

Ruínas de Pasárgada no Irã


“♫ Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei” (Vou-me embora pra Pasárgada, Manuel Bandeira)


No sábado que passou encontrei ex-alunos em uma festa de casamento. De uma das ex-alunas ouvi que, apesar de não ter seguido no ramo do Direito, ela carregava na memória a relação de livros que eu indicava na sala de aula. Já leu alguns e outros ainda a perseguem em mente. Saber que um aluno se sente instigado e carrega para vida alguma mensagem é uma das maiores alegrias que um professor pode ter.


Talvez nesta relação dela, lidos ou não lidos, estejam o Caso dos denunciantes invejosos (Dimitri Dimouis) e O caso dos exploradores de caverna (Lon F. Fuller). Esses livros, apesar de extremamente curtos (qualquer preguiçoso pode ler sem medo) ensinam muito sobre pontos de vista, incoerências, força de versões e de convencimentos, achismos. Parecem espelhos da internet, sua leitura faria muito bem nos tempos de hoje e têm a ver com a história abaixo.


Minority Report


Dos livros, lembrei do filme Minority Report e, dele, de um episódio ocorrido num passado bem, bem distante, num Reino também bem, bem distante. O Reino de Pasárgada.


Lá, diz a história, uma Corte Superior andou pisando feio na bola. Pelo menos, aparentemente. Condenou um membro da Bulé eleito pelo povo, e ex-Acusador Oficial do Reino, por algo que não estava na lei. O tal Conselheiro do Reino (como se chamavam os parlamentares membros da Bulé) havia pedido as contas de Acusador Oficial para não ser processado no seu Órgão de Classe. Isso o Reino todo sabia, e ele apenas se utilizou de uma brecha para não ser processado. A Corte Superior, porém, achou um absurdo e, por via de outra brecha – bastante discutível –, condenou o Conselheiro ao ostracismo político.


Lembrou, este episódio, o filme que viria séculos depois: Minority Report (sim, aquele com Tom Cruise). No filme, a polícia prendia o suspeito antes que cometesse o crime porque videntes chamados precogs “viam o futuro”. Na história de Parságada, a Corte condenou o coitado do Conselheiro porque deduziu que ele seria processado no seu Órgão se não pedisse a conta (e esse processo inviabilizaria que concorresse a uma vaga no Conselho do Reino). Os Membros da Corte Superior se tornaram precogs, pelo que parece, deduzindo o que ainda não tinha acontecido.


As hordas daquele Reino, tal qual acontece atualmente nos mundos da internet, tomaram partido. Dependendo dos círculos (que hoje poderíamos chamar de bolhas das redes sociais), defendia-se a Corte ou o ex-Acusador.


Em Qualquer Lugar


Os que defenderam a estranha decisão da Corte Superior recordavam de episódio anterior, pelo qual o ex-Conselheiro ganhou as luzes da evidência pública.


Na época que ele ainda era Acusador Oficial do Reino, o Rei andou pisando feio na bola. Pelo menos, aparentemente. Dizem que tinha misteriosamente ganhado um Castelo. E como sói acontecer nestas situações, investigações foram instauradas. Como as denúncias eram graves, o Julgador Oficial da Esfera Inferior e o Acusador Oficial do Reino (sim, era um Reino da Idade Média, mas havia lá certa Democracia) resolveram catalisar o resultado em prol de um bem maior (do malfado “os fins justificam os meios”): combinaram entre eles o que o Acusador deveria acusar e o que o Julgador deveria julgar para alcançarem diretamente a jugular do Rei. Parece muito estranho para nós, das atuais Democracias Liberais que defendem o processo justo e lídimo, mas estamos falando de séculos atrás. O Rei, óbvio, foi condenado.


Com tanta repercussão e elevados ao status de Gladiadores Invencíveis (hoje talvez caberia algo como popstars ou influenciadores digitais), tanto o Acusador Oficial quanto o Julgado Oficial de Esfera Inferior largaram suas vestes talares, lançaram-se à política e viraram Conselheiros do Reino. Nesse meio tempo, vieram à luz as escusas combinações entre eles, o que colocou em xeque todo o processo contra o ex-Rei, que morreu nas masmorras.


Ambas as histórias, que no final se entrelaçam, poderiam ocorrer em Oceânia, Terra Média, Oz, Hogwarts, Nárnia, País das Maravilhas ou até, quem sabe?, em algum conto kafkaniano moderno. Menos em Berlim, claro, porque “ainda há juízes em Berlim”.

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