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Mais livros e menos cérebros

Disrupção: Tudo com Raphael Rocha Lopes

foto: Déborah Bianek


“♫ É claro que somos as mesmas pessoas/ Mas pare e perceba como seu dia-a-dia mudou/ Mudaram os horários, hábitos, lugares/ Inclusive as pessoas ao redor/ São outros rostos, outras vozes/ Interagindo e modificando você/ E aí surgem novos valores/ Vindos de outras vontades (Anacrônico, Pitty)


Fui provocado pelo Dr. Emílio da Silva Neto sobre o futuro da absorção do conhecimento, eis que se vê claramente a sua evolução dos tempos antigos e às diferenças e dificuldades dos atuais. Da transmissão oral às pequenas telas nas palmas das mãos.


Pois bem! Como será o compartilhamento do conhecimento pós-livro digital? Eis a pergunta. Eis minha resposta: não sei! Posso ter uma vaga ideia, mas as mudanças estão tão rápidas e surpreendentes que esta vaga ideia de hoje pode ser outra amanhã (e quando digo amanhã, quero dizer amanhã mesmo, não daqui a dez anos). Neste aspecto, gosto do pensamento de Nietzsche: um homem com dúvidas é um homem livre. Conforta-me!


Geração menos inteligente


Muita gente foi pega de surpresa com a notícia de que a atual geração é “menos inteligente” do que a dos seus pais. A notícia não é nova, é de 2020, mas foi requentada agora por algum motivo que não sei. As manchetes falam que “geração digital tem QI inferior à geração de seus pais” ou variações disso.


Outras pessoas dizem não ficaram surpresas, que isso é óbvio, que essa geração é fraca, acomodada ou, usando um termo da moda, está muito Nutella. Fiquei mais ou menos surpreso e gosto de Nutella (e dos genéricos também).


Esta discussão sobre a inferioridade geracional veio à tona por conta da publicação do livro “A fábrica de cretinos digitais”, do neurocientista francês Michel Desmuget. Ainda não o li, então não posso comentá-lo.


Não quero me alongar aqui, sob pena de fugir do desafio que me foi feito. Mas uma comparação feita pelo autor do livro, em suas entrevistas, que me chamou a atenção é a do cérebro com as massas de modelar. Ambos têm grande plasticidade no início, e, com o tempo, vão a perdendo. O cérebro de crianças e adolescentes amolda-se com muita facilidade, ou seja, vai absorvendo e aprendendo muito. Com o tempo, isto diminui drasticamente. E, segundo o neurocientista, o excesso de tempo com telas está contribuindo para alterar o desenvolvimento do cérebro para pior.


Mas, atenção! A culpa não é da tecnologia e nem só do excesso de telas. Há muito mais coisa envolvida. E ouso dizer que pais inteligentes (?!) que interagem mais com seus celulares do que com seus filhos talvez sejam a principal causa.


Mas, e o futuro da absorção?


A pergunta é: o que virá depois dos livros digitais? Não tinha como responder sem esta pequena introdução acima.


As pessoas estão mais cerebralmente preguiçosas, produzindo menos sinapses, e tudo isso por causa do avanço ultrassônico da tecnologia. Já comentei em outro artigo sobre nossa desnecessidade de decorar números de telefone de amigos ou mesmo as rotas para chegar a qualquer lugar. Está tudo no celular.


Nosso futuro será, então, de anencefalia generalizada? Espero sinceramente que não cheguemos ao padrão das subclasses previstas nos extraordinários livros 1984 e Admirável mundo novo.


Mas é fato que as preocupações são necessárias. Já existem estudos e experimentos para acoplar máquinas ao cérebro humano. Ao contrário da inteligência artificial, que é tentar dar ao computador a inteligência humana, neste outro prisma está se querendo dar ao homem a robustez, quantidade e velocidade de raciocínio de um robô superpotente. Uma espécie de Automan (aos saudosistas das séries dos anos 80) em versão real.


Tais experiências se concretizando, as pessoas lerão dezenas ou milhares de livros sem os lerem propriamente. Absorverão todo o conhecimento em uma conexão homem-máquina, numa evolução da Internet das Coisas, o que já se chama de Internet dos Corpos.


Estaremos possivelmente diante de um novo paradoxo: uma geração menos inteligente com muito mais inteligência do que qualquer outra...


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